Eleição é confronto e disputa, seja onde for. A 51 dias da votação, a prévia do Psdb para escolher o pré-candidato do partido à Presidência da República vai ganhando confronto e disputa – consequentemente, ganhando cara de eleição. A segunda passagem do governador gaúcho Eduardo Leite por Florianópolis na quarta-feira engrossou o caldo dessa mistura e atiçou os tucanos estaduais que o apoiam e também os que estão ao lado do governador paulista João Dória, que hoje polarizam a disputa.

Até agora, Leite conseguiu mostrar mais apoio entre as lideranças do partido no Estado, mas os aliados do paulista conseguiram impedir que houvesse apoio formal da executiva estadual do Psdb. Até quarta-feira, a presidente estadual Geovânia de Sá, deputada federal, havia conseguindo manter uma posição equidistante em relação aos dois postulantes – muito mais por medo de reações em sua base evangélica do que por afinidade com ou outro. Por diferentes motivos, Leite e Dória enfrentam rejeição nesse eleitorado, propenso a seguir com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Na véspera do encontro, ela comandou reunião da executiva em que foi renovada a intenção de não oficializar apoios na prévia.

No entanto, Geovânia parece ter se entusiasmado com o evento de Leite no dia seguinte. Em discurso, disse que “a maioria executiva demonstrou apoio ao nosso amigo e futuro presidente do Brasil, Eduardo Leite”. Foi o que bastou para sofrer com a artilharia dupla: da igreja Assembleia de Deus, de quem foi candidata oficial em 2014 e 2018, e dos aliados de Dória, que viram quebra do acordado na véspera. De qualquer maneira, a deputada federal está correta no retrato do momento: hoje, o governador gaúcho mostra vantagem em relação ao paulista entre as figurinhas carimbadas do tucanato local.

Estive no evento e constatei. Na linha de frente do apoio a Leites estavam o deputado estadual Marcos Vieira, o ex-deputado e pré-candidato a governador Gelson Merisio e o prefeito criciumense Clésio Salvaro. Os entusiasmados não eram poucos. O ex-governador Leonel Pavan dizia para quem quisesse ouvir – e quem não quisesse também – que Eduardo Leite é o Barack Obama brasileiro.

– É a ponte entre os extremos – dizia Pavan, em referência à biografia do ex-presidente dos Estados Unidos, A Ponte, do  jornalista David Remnick.

A aposta entre os tucanos pró-Leite é que a própria visibilidade de uma eventual vitória de Leite sobre o já nacionalizado João Dória serviria para colocá-lo em evidência e pavimentar a tal terceira via presidencial. Voltando a Pavan e à ponte, foi o que aconteceu quando o pouco conhecido senador Obama supreendeu Hillary Clinton nas primárias do Partido Democrata em 2008.

A reação dos aliados de Dória foi quase imediata – com o ex-senador Paulo Bauer e o secretário do governo paulista Vinicius Lummertz à frente. Bauer questionou no grupo de WhatsApp do diretório tucano a informação dada por Marcos Vieira em discurso de que o gaúcho tem apoio de 65% dos integrantes da instância partidária. Pedia a lista de nomes desses apoiadores.

– Tua afirmação de que 65% dos integrantes do diretório estadual subscreveram documento de apoio à candidatura dele demonstra inequivocamente que o partido em SC não precisa mais de reuniões, de debates e discussões, de votações livres e democráticas. Basta um “abaixo assinado” organizado por quem emite suas opiniões e vontades “silenciosamente” para que a deliberação se torne pública, válida e incontestável – disse Bauer.

Além da crítica aberta, a artilharia de Dória trabalha nos bastidores na estratégia de vincular o projeto Eduardo Leite ao desgastado deputado federal mineiro Aécio Neves – esta em ação há mais tempo – e à hipotética possibilidade de que o gaúcho seja vice de Ciro Gomes (Pdt), fruto da ligação histórica entre o pedetista e o senador Tasso Jereissati, do Ceará, que abriu mão de participar da prévia para apoiar o gaúcho. Leite reagiu imediatamente, negando a chance de apoiar Ciro e até desdenhando do potencial do presidenciável em sua quarta tentativa de chegar ao Planalto.

Como disse antes, a prévia vai ganhando cara de disputa. Eleição na terra, tempo de guerra – guerra de narrativas. Dória vai mostrando suas armas e elas não são diferentes das que lhe deram as vitórias nas únicas duas prévias que o Psdb já realizado: para prefeitura de São Paulo em 2016 e para o governo do Estado em 2018. Nesse confronto de tucanos, Santa Catarina tem peso e merece destaque.

É o quinto Estado em número de filiados tucanos, com cerca de 5%. O voto aberto de todos os filiados vale um quarto do resultado da prévia. Além disso, há um grupo equivalente em que votam apenas prefeitos e vices. Entre eles, os catarinenses também são 5% do 936 eleitos em 2020. O Psdb-SC também tem cerca de 6% dos 4.377 vereadores do partido, que votam agrupados aos deputados estaduais e distritais, com pesos diferentes. O último grupo – dos caciques – também vale um quarto da prévia e tem entre os catarinense apenas Geovânia.

Em uma eleição disputada como promete ser o confronto entre Leite, Dória e o ainda inscrito ex-senador amazonense Arthur Virgílio, a fatia catarinense dos votos pode definir quem vai portar o 45 nas urnas eletrônicas em 2022. Os 51 dias que faltam para a prévia serão interessantes de acompanhar.


Sobre a foto em destaque:

Lideranças tucanas receberam Eduardo Leite e Tasso Jereissati na quarta-feira em Florianópolis. Foto: Rodger Timm, Psdb-SC.

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