Casildo Maldaner construiu uma biografia marcante e irrepetível na política catarinense. Irrepetível porque embora seja possível que alguém também construa uma trajetória como vereador de um pequeno município, deputado estadual, deputado federal, vice-governador, governador e senador, é impossível que o faça ao estilo de Casildo Maldaner.

Um dos maiores símbolos do MDB em Santa Catarina, o ex-senador era a memória viva de um jeito de fazer política que não existe mais, mas que não deve ser esquecido e nem descartado. Começou no lombo de um cavalo, ainda pela antiga UDN, buscando os 114 votos que o fizeram o vereador mais votado de Modelo. Até onde aquele galope podia chegar? Chegou muito longe.

Casildo construiu sua carreira política na oposição ao regime militar, galgando posições na Assembleia Legislativa e na bancada catarinense na Câmara dos Deputados quando ser contrário ao governo podia dar cadeia ou coisa pior. Com seu jeito brincalhão e apaziguador, o emedebista conquistou espaços que muitos considerariam improváveis. Foi protagonista da política catarinense com mandatos por quase 50 anos – da vereança em Modelo ao fim do mandato de senador em 2011. Nunca deixou de ser ouvido, especialmente no MDB.

Ano passado, foi no apartamento dele em Florianópolis que o governador Carlos Moisés (PSL) – lutando contra a abertura dos processos de impeachment na Assembleia – teve um encontro com todos os ex-governadores emedebistas em busca de conselhos. Casildo viveu a política até o fim e sofreu com a pandemia que impediu suas andanças pelo Estado, onde sempre tinha uma palavra para tentar motivar o MDB.

Casildo continua sendo o único político do Oeste a chegar efetivamente ao cargo de governador – herdado com a morte de Pedro Ivo Campos em 1990, um ano antes do fim do mandato. Ocupou uma cadeira no Senado por 12 anos – eleito em 1994 e como suplente efetivado em 2007 com a renúncia de Raimundo Colombo (DEM à época) para assumir o governo do Estado.

Sabia fazer sacrifícios em nome do (P)MDB. Foi suplente de Colombo para garantir que os companheiros de partido fizessem campanha para o ex-adversário na eleição que garantiu a reeleição de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) em 2006. Quatro anos antes, quando os ventos da mudança sopravam para a esquerda, antecipou-se a LHS no anúncio do apoio à candidatura de Lula (PT). Não se reelegeu senador, mas ajudou a construir o apoio petista à improvável vitória de Luiz Henrique sobre Esperidião Amin.

Entre suas muitas frases emblemáticas que entraram para o folclore político do Estado, poucas resumem tanto o estilo Casildo quanto “é melhor duas horas de conversa do que cinco minutos de tiroteio”. Não podia ser mais atual e o emedebista não poderia estar mais certo. Sua partida nas últimas horas de segunda-feira aconteceu enquanto a política brasileira, a política catarinense e o seu MDB vivem momentos decisivos, emblemáticos.

Talvez não estivessem no velho estilo de Casildo as respostas para o desgaste de uma polarização antecipada da disputa pelo poder nacional entre um presidente e um ex-presidente, para os contratempos de um governador que tenta mostrar força após quase sofrer impeachment, para o dilema emedebista entre os três rumos bem diferentes que marcam a prévia para escolha de seu candidato a governador. Mas o espírito de uma política feita junto às pessoas, que equilibre seriedade e leveza, uma política que saiba brincar consigo mesma, talvez possa ser o farol para iluminar alguns caminhos que vamos precisar continuar percorrendo agora que Casildo encerrou seu galope.


Sobre a foto em destaque:

Casildo Maldaner começou sua carreira política buscando a cavalo os 114 votos que o elegeram vereador em Modelo. O galope político levou o emedebista aos principais cargos do Estado. Foto: Acervo pessoal.