É a pá de cal ou o limão que vira limonada? O governador Carlos Moisés (PSL) tem quase um mês para se preparar para um encontro que poderá ser definido posteriormente por uma dessas duas expressões populares, a depender de seu desempenho. A CPI da Covid no Senado agendou uma maratona de depoimentos de sete governadores sobre irregularidades nos gastos da pandemia entre 29 de junho e 8 de julho. Coube ao catarinense ser o antepenúltimo nessa fila, com fala marcada para 6 de julho.

Claro que ainda existe o suspense em relação à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a possibilidade de governadores serem convocados para uma CPI no Senado, o que deve ser decidido até quinta-feira, data marcada para a oitiva de Wilson Lima (PSC), do Amazonas, o primeiro governador chamado para falar aos parlamentares. Considerando que os ministros deem aval, estará armado um cenário com farta dose de munição política para quem a souber usar.

Tudo que Moisés não queria após o enterro oficial e solene dos processos de impeachment era ter que falar da compra dos 200 respiradores de UTI por R$ 33 milhões em março do ano passado, estopim de uma crise política sem precedentes no Estado. O governador venceu a longa e penosa batalha contra o afastamento, mas ainda não consegue responder à incômoda pergunta sobre o paradeiro do dinheiro pago por aparelhos nunca entregues e sobre os responsáveis dentro do governo pela nebulosa e atrapalhada transação. Uma resposta que Santa Catarina aguarda não apenas dele, mas também e especialmente dos órgãos de investigação.

Para a narrativa política de recuperação de prestígio, Moisés aposta em viagens pelo Estado, anúncio de obras e ações, traz para si a resolução de temas que atravancam o desenvolvimento catarinense – como obras federais atrasadas. Até a fama de que não saía da Casa d’Agronômica está sendo combatida com uma agenda que o mantém longe de Florianópolis a maior parte da semana. Mas pouco disso adianta se o assunto dos respiradores não tiver uma resposta clara e definitiva. E, pior, se continuar voltando à pauta enquanto isso não acontece.

Moisés conseguiu responder por escrito as perguntas que a CPI da Assembleia Legislativa fez sobre o tema – graças ao entendimento da Procuradoria da Alesc de que o governador não poderia ser convocado. O governador também escapou de depor diante do Tribunal do Impeachment, pela avaliação do desembargador Ricardo Roesler, presidente do Tribunal de Justiça, de que ele não poderia ser obrigado a esse procedimento. Agora, espera mais uma vez do mundo jurídico a decisão que o impeça de tratar do tema desconfortável diante de uma plateia politicamente hostil.

No entanto, se for hábil e convincente, Moisés pode se sair bem na CPI. Pelo cronograma, como penúltimo a falar, seu depoimento chegará quando a sequência de falas de governadores já tiver se tornado enfadonha por estarem fora dos holofotes de interesse nacional. Além disso, a maioria dos senadores não conhece e nem se importa com os respiradores. Assim, o depoimento pode se tornar apenas um debate entre Moisés e o senador Jorginho Mello (PL), possível adversário nas urnas em 2022. Há diferenças claras entre um depoimento e um debate. Cada vez mais atrelado ao bolsonarismo, Jorginho terá seu principal momento na CPI ao fazer o contraponto estadual. 

Em 1997, o Senado criou uma CPI para investigar a emissão irregular de precatórios em todo o país e o então governador Paulo Afonso Vieira (PMDB) era um dos envolvidos. A CPI contou com toda a bancada catarinense – Esperidião Amin e Vilson Kleinübing no ataque, Casildo Maldaner na defesa. O Senado foi o palco de onde Amin pavimentou a volta ao governo em 1998 contra um mais do que fragilizado Paulo Afonso. O cenário hoje é completamente diferente, claro. Mas estejam prontos Moisés, Jorginho e todos nós. O primeiro ato da eleição de 2022 já tem data marcada.


Sobre a foto em destaque:

A CPI da Covid será o palco de um primeiro confronto entre dois possíveis candidatos ao governo em 2022: o atual governador Carlos Moisés e o senador bolsonarista Jorginho Mello. Resta saber se o STF vai deixar. Foto: Marcos Oliveira, Agência Senado.