Ao reassumir a função de líder do governo na Assembleia Legislativa, o deputado estadual José Milton Scheffer (Progressistas) fez uma previsão otimista sobre a governabilidade nesta terceira etapa de Carlos Moisés (PSL) no comando do Estado. O progressista acredita que a base de apoio ao governador fique entre 23 e 29 parlamentares. Confirmada a expectativa, é suficiente para que os tempos de crise política fiquem para trás.

O número mágico da governabilidade em Santa Catarina é 27. Esse era o número de deputados estaduais na bancada do governo perseguido nas gestões de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) e Raimundo Colombo (DEM/PSD). A matemática política é mais do que básica. Com 27 apoiadores, restam apenas 13 para a oposição. A abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) demanda 14 assinaturas.

A busca por esse número mágico deu início à maior aliança política da história catarinense pós-regime militar, no primeiro governo de Luiz Henrique. Após vencer Esperidião Amin (Progressistas) por apenas 20 mil votos em 2002, o peemedebista tentou formar sua base com a bancada do PT, que não quis se atrelar à gestão que ajudara a eleger. Foi por isso que LHS foi atrás do PFL de Júlio Garcia e construiu, dentro da Assembleia, a tríplice aliança que juntou os pefelistas ao PMDB e ao PSDB. Os nomes das siglas mudaram com o tempo, mas o grupo reelegeu Luiz Henrique e garantiu a primeira eleição de Raimundo Colombo.

Herdeiro dessa composição, o lageano chegou a ver sua base alcançar 33 deputados estaduais. Isso lhe deu mais segurança do que governabilidade – muitas vezes a união de interesses contrários fez ideias e projetos morrerem antes de chegarem ao plenário. É um ensinamento importante: a base parlamentar não pode ser um fim em si mesmo.

Voltando ao presente e ao terceiro momento do governo Moisés, a projeção de uma base de pelo menos 23 deputados é um alento para quem esteve à beira de um rompimento institucional com o parlamento há pouco mais de seis meses. A conciliação com o MDB e com Júlio Garcia – olha ele aí de novo – após o julgamento e arquivamento do primeiro impeachment propiciou esse cenário, momentaneamente interrompido pelo segundo afastamento do cargo em março, desta vez no julgamento do impeachment sobre o caso dos respiradores fantasmas.

Curiosamente, a formação de uma base confortável para Moisés na Alesc neste momento se dá de forma quase oposta às costuras de Luiz Henrique em 2005. Na época, era a construção de um sólido projeto para reeleição, isolando o PP de Amin e o PT vitaminado pelo Palácio do Planalto. Fez-se história. Moisés, por mais que deseje, dificilmente terá condições de liderar uma aliança desse porte.

O governador se livrou do fantasma do impeachment e terá condições de concluir o mandato, mas essa governabilidade talvez seja a moeda que os mesmos aliados que trabalharam por sua permanência vão utilizar para convencê-lo a não disputar a reeleição em 2022. O MDB vai se encaminhando para abraçar um projeto próprio – Antídio Lunelli ou Dário Berger. O PSD olha para Gean Loureiro, prefeito de Florianópolis. O Progressistas avalia o melhor convite, enquanto os tucanos se dividem entre apostar ou boicotar o projeto Gelson Merisio. Há muitos caminhos e interesses, poucos passam por Moisés.

Insistir na reeleição poderia colocar em risco a tranquilidade de governar sem sustos até 31 de dezembro de 2022. A política é dinâmica, mas Moisés carrega marcas difíceis de administrar – a operação desastrada que lesou os cofres do Estado em R$ 33 milhões, o afastamento voluntário do presidente Jair Bolsonaro (e as tentativas inócuas de reaproximação), os inéditos afastamentos do mandato para julgamentos de impeachment. Essas marcas são responsáveis por índices de rejeição nas pesquisas internas cuja reversão até o ano que vem é muito improvável.

A política dá voltas, há dinheiro em caixa e o imponderável parece gostar de Carlos Moisés da Silva. É nisso que o governador precisa acreditar se quiser repetir Luiz Henrique e fazer uma aliança eleitoral a partir da governabilidade parlamentar. Moisés acredita. Ele é um homem de fé, isso ninguém pode negar.


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Governador Carlos Moisés e o líder do governo Zé Milton Scheffer na Alesc. Foto de Bruno Collaço, Agência AL/Divulgação