Na reta final das definições das alianças partidárias e composições de majoritárias, o senador Jorginho Mello (Partido Liberal) começou a desdenhar a ausência de parceiros de outras legendas com uma frase realmente relevante para o tipo de disputa que Santa Catarina vive este ano.

– Minha aliança é o 22.

O número do presidente Jair Bolsonaro (Partido Liberal), candidato à reeleição, era e é o principal trunfo de Jorginho Mello na escalada rumo ao segundo turno na eleição para governador e, se lá chegar, será o instrumento para tentar alcançar o governo do Estado a bordo de um partido anabolizado pela filiação do presidente e de seus parceiros com mandato de deputado federal e estadual, mas que é uma legenda de médio porte nos municípios catarinenses. Os primeiros movimentos de Jorginho na campanha eleitoral para consolidar essa relação com Bolsonaro foram atabalhoados, mas ele parece estar acertando o tom.

O começo da campanha ficou marcado por uma espécie de ciúme da imagem do presidente Bolsonaro. A pressa e apresentar-se como “o candidato do Bolsonaro” atrapalhou a própria narrativa, que ficou à mercê dos próprios humores do presidente. Jorginho foi à Justiça Eleitoral garantir que o adversário Gean Loureiro (União) não pudesse utilizar imagens de Bolsonaro na campanha – e conseguiu -, mas teve que ver trazida para Santa Catarina uma bronca que o presidente deu no candidato do Partido Liberal de Rondônia que fez o mesmo. Dias depois, em live, Bolsonaro recomendou voto em Jorge Seif (Partido Liberal) para o Senado, mas sobre a disputa ao governo disse: “Santa Catarina, também tem vários governadores me apoiando, até meu partido tem também candidato”.

Ou seja, não adianta ser possessivo com Bolsonaro.

Mas na última semana, a campanha de Jorginho acertou o tom no uso da imagem do presidente ao vincular ambos pelo que tem de único: os recorrentes elogios que o presidente fez à atuação do senador em Brasília, especialmente pelo projeto do Pronampe, programa que criou condições especiais para micro e pequenas empresas acessarem crédito durante a pandemia. Virou uma marca de Jorginho e sempre foi referenciada por Bolsonaro nos eventos em que o catarinense estava presente. Esses vídeos estão sendo utilizados na campanha eleitoral agora como uma marca de parceria com Bolsonaro que os outros bolsonaristas da disputa, como o senador Esperidião Amin (Progressistas), apresentam mais dificuldade em encontrar.

Mas se o passado recente ajuda Jorginho, o passado distante certamente vai começar a ser utilizado com mais força para colar a ele a marca de ser parceiro de qualquer governo. Semana passada, o candidato do Partido Liberal foi derrotado na Justiça Eleitoral ao pedir que fosse retirada do ar uma fotografia postada pelo Movimento Brasil Livre (Mbl) em que aparece ao lado da ex-presidente Dilma Rousseff (Pt) quando ainda era deputado federal. Como está liberada, reproduzo:

A juíza Ana Cristina da Rosa Grasso considerou que a postagem provocativa do Mbl trazia apenas “mera informação sobre as opções passadas de pessoa pública candidata às eleições atuais”. A equipe jurídica de Jorginho alegava que a peça estava descontextualizada. Contextualizo, então. O momento registrado pela foto escolhida está realmente sem o contexto que se lhe quer dar. Jorginho era deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa, ainda filiado ao Psdb. Dilma, a seu lado, era ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula (Pt) e foi recebida no parlamento catarinense em um seminário sobre o petróleo pré-sal em novembro de 2009. Reproduzo outra imagem do mesmo dia.

Fotos: Carlos Kilian, Agência Al.

No ano seguinte, 2010, Dilma seria eleita presidente da República. Jorginho chegaria a Brasília para seu primeiro mandato como deputado federal, eleito pelo Psdb – na época em que os tucanos eram os protagonistas da oposição aos governos do Pt. Dois anos depois, Jorginho conseguiria aval da Justiça Eleitoral para deixar o ninho tucano e migrar para o Partido da República, atual Partido Liberal. E virou governista – com direito a indicar o comando do Dnit-SC no segundo mandato da petista. Isso é contexto, isso é história. Jorginho foi base de Dilma Rousseff. Trago outra foto da mesma época – agora, sim, ela presidente e ele deputado federal.

Formatura do Pronatec em Florianópolis em junho de 2014. Dilma entre o governador Raimundo Colombo (Psd) e o deputado federal Jorginho Mello (Pr). Foto: Miriam Zommer, Agência Al.

Dizia Mario Quintana que o passado é um intrometido. Está sempre presente. Jorginho Mello, candidato do partido de Jair Bolsonaro em Santa Catarina e fartamente elogiado por ele pela parceria no Senado, é o mesmo que apoiou boa parte do mandato da petista Dilma Rousseff. As contradições fazem parte da política e a campanha eleitoral é o momento em que são julgadas pelo eleitor. É melhor Jorginho explicar o fantasma Dilma do que tentar apagar o passado com pedidos de liminar.


Sobre a foto em destaque:

Reprodução do trecho do horário eleitoral de Jorginho Mello que destaca elogios de Bolsonaro.

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