Ninguém declara apoio para o segundo turno de uma eleição cujo primeiro turno só será disputado um ano e cinco meses depois. O encontro e – especialmente – a foto que os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula (PT) divulgaram nas redes sociais no final de semana causou alvoroço na política nacional, com efeitos claros também em Santa Catarina. Durante 20 anos, de 1994 a 2014, PSDB e PT polarizaram a disputa pelo poder no Brasil tendo o sociólogo e o líder sindical como supostos antípodas.

Foram as circunstâncias da política que colocaram petistas e tucanos em lados opostos do ringue. O PSDB não foi criado para ser sinônimo de antipetismo e nem para confrontar Lula. O partido nasceu de uma dissidência à esquerda no PMDB, tomado em São Paulo pelo então governador Orestes Quércia e ajudando a dar gênese em Brasília ao que hoje chamamos de Centrão. Primeiro candidato a presidente da República, em 1989, Mário Covas pregava um “choque de capitalismo” enquanto era chamado de esquerdista. Nada mais tucano do que isso. No segundo turno, Covas (e FHC) apoiou Lula contra Fernando Collor (PRN), o candidato da direita, que venceria a disputa.

Em 1994, ano que marcou o primeiro confronto entre FHC e Lula, os dois partidos por muito pouco não coligaram. Tasso Jereissati era cotado para ser vice na chapa do petista, que liderava com folga as pesquisas. O Brasil vivia o errático governo Itamar Franco, vice de Collor alçado ao poder pelo impeachment, que só tomou rumo quando FHC assumiu o Ministério da Fazenda e empoderou o grupo de economistas que criou o Plano Real. O Real, moeda, fez de FHC candidato a presidente e afastou para sempre PSDB e PT. O partido criado para reagir ao abraço do PMDB com o centrão da época, elegeu-se com o PFL de vice. 

FHC venceu Lula em 1994 e em 1998. Nunca mais disputou eleições – chamuscado pela perda de popularidade após a desvalorização do Real no início do segundo mandato. O PSDB perderia para o petista em 2002 (com José Serra) e 2006 (com Geraldo Alckmin) e para a pupila Dilma Rousseff em 2010 (Serra de novo) e 2014 (Aécio Neves). A cada disputa, aumentavam a rivalidade e a radicalidade do discurso de confronto. Os tucanos caminharam cada vez mais à direita, herdando um antipetismo que não estava em sua origem. Absorveu quadros de centro-direita, especialmente em Santa Catarina. Um deles, por exemplo, é o prefeito criciumense Clésio Salvaro, ex-PFL, que chegou ao partido em 2003. 

O olhar para o passado distante, para a gênese dos partidos, mostra o duelo histórico de petistas e tucanos como uma briga de primos. Inconciliável, porque a vida transformou os dois partidos em antagonistas e seus líderes em rivais. Isso explica a forte reação nas bases tucanas ao encontro de FHC com Lula. Em Santa Catarina, Clésio e a deputada federal Geovânia de Sá reprovaram o gesto do ex-presidente. Os bolsonaristas exploraram a foto com o argumento usual de que não há diferença entre tucanos e petistas, pois ambos seriam partidos esquerdistas. A imagem ganhou o país como apoio precoce de FHC a Lula. Como eu disse no começo do texto, não há apoio de segundo turno antes do primeiro turno acontecer.

Fernando Henrique passou os últimos dois anos e meio tentando viabilizar uma alternativa a Jair Bolsonaro e ao PT que não passasse pelo governador paulista João Dória (PSDB), em quem não confia. Estimulou o apresentador Luciano Huck e o governador gaúcho Eduardo Leite (PSDB). A volta de Lula ao cenário eleitoral, com a anulação de suas condenações na Lava-Jato, tiveram como resultado imediato a desidratação de uma terceira via que já agonizava por falta de apelo popular e verdadeira construção política. É por isso que digo que a foto de FHC não é apoio a Lula, é uma ameaça. Ou os interessados entram em campo para construir uma alternativa a Bolsonaro e Lula, ou os petistas voltam ao Palácio do Planalto. Com o voto dele.


Sobre a foto em destaque:

Fernando Henrique Cardoso e Lula fizeram registro do encontro realizado na casa de Nelson Jobim, que foi ministro da Justiça do tucano e da Defesa do petista. Foto: Ricardo Stuckert, Divulgação.